Mãe-Estar

julho 22 2022, 18:00

Posso tomar antidepressivos amamentando?

Ao contrário do senso comum, a gestação e o puerpério não protegem a mulher dos transtornos mentais, e o período perinatal, que compreende a gravidez até um ano após o parto é uma fase de alta vulnerabilidade ao desenvolvimento ou recaída de transtornos mentais.

Infelizmente existe o mito de que as mulheres devem tolerar a depressão durante a gestação e pós-parto pelo bem do bebê, mas a verdade é que a não realização do tratamento pode comprometer a evolução da gestação, o desenvolvimento fetal e neonatal e o vínculo afetivo entre a mãe e o bebê. A depressão na gestação é o maior fator de risco para a depressão pós-parto.

O tratamento da depressão pós-parto vai depender da gravidade do quadro e da decisão pessoal da mãe. Deve incluir, além das intervenções farmacológicas e/ou psicológicas, avaliação de potenciais vulnerabilidades sociais.

Depressão pós-parto?

Na escultura hiperrealista de Ron Mueck, “Woman with shopping” de 2013. Observamos uma mãe exausta, com aparente indiferença em relação ao bebê que a olha. (Fonte: Pinterest)

Uma publicação recente na revista Nature1 sobre transtornos psiquiátricos pós-parto recomenda que para transtornos leves de humor e/ou ansiedade, sejam realizadas intervenções psicológicas, e para transtornos graves, tratamento psicológico e/ou terapia farmacológica.

Muitas mulheres podem se preocupar a respeito da segurança do uso de antidepressivos durante a amamentação, no entanto, apesar de serem excretados pelo leite, o uso de alguns antidepressivos não é contra indicação à amamentação, e, de fato, não medicar quando necessário para casos graves está associado a piora do quadro e até a suicídios maternos2.

Em geral, o uso de antidepressivos durante a amamentação é considerado seguro, com a maioria dos estudos demonstrando níveis baixos ou indetectáveis no sangue dos bebês.
A sertralina, paroxetina e fluvoxamina, antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina, e a nortriptilina, um antidepressivo tricíclico, são considerados por muitos especialistas medicações de primeira escolha durante a lactação3,4-7, em razão da baixa concentração no sangue e da ausência de efeitos adversos relatados.

Embora incomuns, os bebês devem ser monitorados quanto a alguns efeitos colaterais, como sedação, dificuldade de alimentação e para dormir8. Ainda indisponível no Brasil, a brexanolona, primeira medicação aprovada para o tratamento da depressão pós-parto em mulheres adultas nos Estados Unidos, parece ser promissora9.

Nenhuma mulher deve sofrer na gestação e pós-parto sem tratamento, e nem é preciso escolher entre a saúde da mulher e a do bebê. Procurar atendimento psiquiátrico é fundamental para um diagnóstico e tratamento individualizado, e a automedicação deve ser sempre evitada.

De acordo com Winnicott, (2000) psicanalista e pediatra inglês, um bebê não pode existir sozinho, pois é essencialmente parte de uma relação onde se constitui biológica e psiquicamente a partir do outro, e a mãe deve ser capaz de oferecer um ambiente suficientemente bom, convivendo sem prejuízos psíquicos.

A esta forma de cuidado, Winnicott (1975), aponta que o fato dos bebês se converterem em indivíduos independentes e adultos saudáveis, mas socialmente preocupados, depende totalmente de que lhes seja dado um bom princípio, o qual está assegurado pelo vínculo do amor10.

Diante do exposto, reforço que é fundamental que a mãe esteja psiquicamente bem para que a criança também esteja e se desenvolva bem.

Como Winnicott diz:
A mãe, que talvez esteja fisicamente exausta, e, talvez, incontinente, e que está dependente para muitas coisas, é ao mesmo tempo a única pessoa que pode apresentar o mundo ao bebê de modo significativo para este…, todavia, seus instintos não conseguem se desenvolver se ela estiver amedrontada… o leite materno não desce como uma excreção- é uma resposta a um estímulo que consiste exatamente na visão, no cheiro, e no contato com o bebê, bem como no som do seu choro” 11.

 


Autora do post: Nicole Rezende
Mãe do Otávio de 6 meses, médica psiquiatra com atuação perinatal e parceira da Mãe-Estar.

 

Referências:
Figura – Woman with shopping- Ron Mueck. 2013

1 – Meltzer-Brody, S., Howard, L. M., Bergink, V., Vigod, S., Jones, I., Munk-Olsen, T., … Milgrom, J. (2018). Postpartum psychiatric disorders. Nature Reviews Disease Primers, 4, 18022. doi:10.1038/nrdp.2018.22

2 – Khalifeh, H., Hunt, I. M., Appleby, L. & Howard, L. M. Suicide in perinatal and non-perinatal women in contact with psychiatric services: 15 year findings from a UK national inquiry. Lancet Psychiatry 3, 233–242 (2016).

3 – Sie SD, Wennink JMB, Driel JJ, Winkel AGW, Boer K, Casteelen G, et al.
Maternal use of SSRIs, SNRIs and NaSSAs: practical recommendations
during pregnancy and lactation. Arch Dis Child Fetal Neonatal Ed.
2012:97:F472-76.

4 – Bellantuomo C, Vargas M, Mandarelli G, Nardi B, Martini MG. The safety
of serotonin-noradrenaline reuptake inhibitors (SNRI) in pregnancy and
breastfeeding: a compreensive review, Human Psychopharmacol Clin
Exp.2015;30:143-51.

5 – Gentile S. Triclyclic antidepressants in pregnancy and puerperium. Expert
Opin. Drug Saf. 2014;13(2):207-225.

6 – Nielsen RE, Damkier P. Pharmacological treatment of unipolar depres-
sion during pregnancy and breast-feeding–a clinical overview. Nord J
Psychiatry.2012;66(3):159-66.

7 – Pinheiro E, Bogen DL, Hoxha D, Ciolino JD, Wisner KL. Sertraline and
breastfeeding: review and meta-analysis. Arch Women Mental Health.
2015;18(2):139-46.

8- Moretti ME. Psychotropic drugs in lactation–Motherisk Update 2008. Can J Clin Pharmacol 2009;16(1):e49–57.

9- https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-first-treatment-post-partum-depression

10 – O VÍNCULO MÃE-BEBÊ NO PERÍODO DE PUERPÉRIO: UMA ANÁLISE WINNICOTTIANA Vínculo – Revista do NESME, vol. 14, núm. 1, pp. 1-13, 2017 Núcleo de Estudos em Saúde Mental e Psicanálise das Configurações Vinculares

11- Winnicott DW. A contribuição da mãe para a sociedade. In: Tudo começa em casa. Tradução Paulo Sandler-5th Ed-São Paulo: WMF Martins Fontes; 2011: p 119.

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